19 horas
Nas aulas de jornalismo, especialmente rádio e telejornalismo, os professores de redação reproduzem em sala de aula um ensinamento retirado dos manuais dos pequenos e grandes veículos audiovisuais: a hora, nesses meios, deve ser dada no formato “sete horas da manhã”, “sete horas da noite”. Motivo: nem todo mundo sabe que 19 horas é o mesmo que sete horas da noite. Porém, a Radiobrás invariavelmente começa o seu tradicional A Voz do Brasil com um sonoro “Em Brasília, 19 horas”. É a exceção da regra. Lembrei desse ensinamento básico de redação ao me deparar esta semana com a triste realidade das pessoas que não sabem que 19 horas é o mesmo que sete horas da noite.
Estava em um ônibus, saindo de São Luís com destino a Imperatriz, no Sudoeste do Maranhão, quando uma moça com belos traços indígenas e uma criança que aparentava ter uns quatro anos de idade no colo olhou para o bilhete de passagem e me perguntou: dezenove horas é oito horas da noite, né moça? Antes de responder que não, todos os manuais de redação que havia lido quando estudante de graduação me vieram à mente naquele instante, assim como as oficinas de redação promovidas pelos veículos nos quais trabalhei em minha carreira jornalística antes de ingressar na docência do ensino superior. Nunca, em toda a minha vida, havia imaginado que aquele ensinamento era tão básico quanto necessário. Expliquei a ela a correlação das horas entre o meio dia e a meia noite. No povoado onde ela mora, as pessoas ouvem a voz do Brasil, mas não sabem a que horas, exatamente, o programa começa. Aquela voz embargada pela estática característica das transmissões em amplitude modulada que chega aos rádios de pilha das casas do lugar anuncia que na capital do país as pessoas dizem as horas do segundo período do dia de forma misteriosa. Para caboclos do Brasil profundo, aquilo pode ser realmente um mistério. Afinal, os relógios baratos comprados por R$ 1,99 em alguma lojinha de feira só têm marcadores de 1 a 12, de tal forma que 19 horas é coisa de outro mundo.
O episódio serviu também para passar parte da vigília que sempre me acompanha em viagens noturnas para refletir sobre as deficiências educacionais deste país. Aquela moça jamais foi à escola. Notava-se pela forma como ela “conjugava” os verbos e “concordava” os elementos das frases. Fazia uso de um português tão instrumental quanto incompreensível em algumas ocasiões. O jeito simples de vestir e a maneira acabrunhada de falar denunciavam também o sentimento de inferioridade diante de pessoas que aparentavam ter lido uma meia dúzia de livros na vida. Para ela, assinar o próprio nome e ser capaz de ler os itinerários dos ônibus já era coisa de literato. Pobre moça. Tão bela e tão condenada a uma vida na obscuridade da ignorância. Devia ter uns 20 anos, se muito. Ainda há tempo para corrigir tamanha injustiça, tamanha condenação. Mas, onde ela mora há escolas que oferecem educação para jovens e adultos? E se há, o governo promove alguma campanha para informar isso aos que necessitam? Promove também campanhas para incentivar a matrícula e a freqüência dessas pessoas?
Uma campanha de promoção da educação de jovens e adultos é tão necessária quanto as escolas. Porque pessoas que acreditam já ter passado da idade de ir à sala de aula aprender a ler a escrever sentem vergonha de sua condição de analfabetos. São pessoas que se intimidam tendo que empunhar cadernos e lápis de ensino fundamental quando seus próprios filhos e netos já o fazem. Na mente simples dessas pessoas, é como perder a autoridade diante dos descendentes por admitir a ignorância e se submeter aos ditames de uma “tia” que de repente é muitos anos mais moça que os alunos. Porém, é necessário. O locutor da Voz do Brasil, afinal, não pode informar as horas somente para pessoas que leram uma meia dúzia de livros nos centros urbanos.
Maio 15, 2008 at 3:54 pm
Li, belo texto. Eu particularmente me dou bem mais com as “7 horas da noite” que “19h00″ (embora, realmente, sejam a mesma coisa). Acho que pra mim, é como se o meio dia e a meia noite fossem a passagem de um dia (ou seja, na minha cabeça, tenho dois dias de 12h em um dia só), Hahahah.. Pirações minhas. Mas enfim… Acho que esse exemplo é um grande ensinamento para nós, jornalistas e estudantes de Jornalismo. Elaboramos técnicas e manuais que dizem qual é a melhor opção para o “receptor”, mas esquecemos de ouví-los para saber o que realmente é melhor para ele. Penso também que as pessoas (no geral) têm preguiça de pensar e de buscar a informação. Quantas vezes alguém não já colocou um comentário no meu blog perguntando justamente o que estava escrito no post que ela deveria ter lido? =/ É algo a se pensar. Um abraço!
PS: Li, havia tentado comentar no post anterior mas acho que não foi. De qualquer forma, foi um ótimo texto também!
Maio 21, 2008 at 1:31 am
Muito bom o texto. O que eu acredito que seja um dos desafios do jornalismo hoje é saber como falar ou escrever de forma que atinja uma maioria. Como comunicadores de massa devemos nos policiar para questões como esta apresentada aqui. “7 horas da noite” ou “19 horas”? (Embora o imperialismo nos esteja ensinando uma nova forma “07:00pm”.)
Abraços!
Junho 11, 2008 at 1:45 pm
As vezes me pergunto para que tanta leitura, tantos ensinamentos, se na verdade não sabemos comunicar. Essa tua constatação nada mais é que o reflexo da educação que recebemos. Os manuais e quem os fez, na maioria estão ultrapassados. Nossos pensadores e críticos não tem conhecimento de causa dos assuntos que comentam o que também reflete em nós alunos e profissionais da comunicação.
Como poucos neste Estado, tive e tenho percorrido os mais distantes povoados e vejo quão ignorância está envolto nossos conterrâneos.
Belo texto
Abraços
Reginaldo Rodrigues
Junho 19, 2008 at 6:16 pm
Passo por uma situação dessas quase todos os dias. Minha mãe ajuda na renda de casa fazendo salgados. Estou a um passo da minha graduação em Comunicação e nunca consegui fazer minha mãe continuar os estudos, parados na 5º série do ensino fundamental ou equivalente la em meados dos anos 70. Já quase consegui, mesmo que fosse ensino a distância, mas eu não podia orientá-la sempre e ela desistiu por falta de estímulo.
Ela sente falta disso diariamente n seu próprio trabalho. O pensamento é justamente esse “passei da idade”, “não é mais o meu tempo”. Eu culpo a falta de oportunidade oferecida para que ela continuasse, ela culpa a si mesma.
ps.: Adorei o texto