QI, berimbau e preconceito

A fama de preguiçoso é patrimônio cultural do baiano. Mas creditar à preguiça e a uma suposta inferioridade intelectual inata dos estudantes a baixa nota obtida pelo tradicional curso de medicina da Universidade Federal da Bahia é, pelo menos, preconceito. Preconceito contra os alunos cotistas e pelos demais, preconceito contra a herança cultural de um povo que elegeu o berimbau como instrumento de identidade coletiva.

 

O coordenador do curso, Antônio Natalino Dantas, cometeu vários equívocos e um crime ao comentar o resultado do curso no Enade. Em sua avaliação equivocada, ele não levou em consideração os verdadeiros motivos da pífia nota 2: o curso está sucateado e os alunos aproveitaram o exame para protestar com a única arma que tinham, o boicote. Deixar de resolver o exame é uma forma eficiente de chamar a atenção para uma realidade comum às universidades públicas deste país. Os cursos, em sua maioria, não passam de sucatas, com professores que muitas vezes fingem que dão aula em salas que todo mundo finge que são laboratórios para alunos que fingem que daquele jeito é possível aprender. Não sou a favor de boicotes. Em minha época de graduação, não “colei” no provão do então ministro Paulo Renato de Sousa. Colar no provão era responder às questões colocando um adesivo de protesto na folha em branco. Porém, o protesto dos alunos da UFBA, que foi entendido como burrice crônica e contagiosa, fez efeito. Chamou a atenção para o fato de que aquela tradicional escola de medicina, a mais antiga do país, não passa de um amontoado de sucata. E esperam que algo seja feito para melhorar a qualidade do processo de ensino-aprendizagem. Afinal, em última instância, esse debate interessa é aos futuros pacientes desses futuros médicos.

 

Já afirmar categoricamente que o fato de ter um instrumento de uma corda só como símbolo da cultura popular é prova incontestável da falta de inteligência daquele povo é preconceito que traz em seu bojo o racismo. E racismo é crime. Por que racismo? Porque berimbau é um símbolo da cultura afro-brasileira. Ou seja, é coisa de preto. O discurso do professor é claro: os alunos foram mal na prova porque são negros e negros são desprovidos de inteligência e só não vê quem não quer porque os negros são capazes de tocar apenas um instrumento de uma corda só, coisa de quem tem “um único neurônio”. O que talvez ainda não tenha sido dito ao caro colega é que tocar berimbau é tão difícil quanto tocar qualquer outro instrumento de corda. Talvez até mais difícil, já que tem apenas uma única corda de onde várias notas devem ser produzidas. O baiano pode até ser o preguiçoso que a anedota nacional prega, mas desprovido de inteligência, não. Já o preconceito, este sim tem um QI questionável.

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4 Comments on “QI, berimbau e preconceito”


  1. Vergonhoso o que este sr. falou. Mas, enfim… Estamos no Brasil.

    Abraço Li!!!

  2. Ana Paula Says:

    QUE FRASES IDIOTAS!
    SOU BAIANA, MORO EM SÃO PAULO, SOU FORMADA EM BIOLOGIA E SOU MUITO INTELIGENTE OXE SE SOU, AFINAL BAIANO NÃO NASCE ESTREIA, TIRE SOMENTE PELOS MELHORES CANTORES E CANTORAS NACIONAIS SÃO TODOS BAIANOS!
    AH E NÃO SOMOS PREGUIÇOSOS APENAS VIVEMOS NÃO VEGETAMOS COMO PESSOAS DE OUTROS ESTADOS, VAI ME DIZER QUE O PAULISTANO VIVE? AONDE NO ESCRITÓRIO AH NÃO É NO TRANSITO ALIÁS MORAMOS AQUI NO TRANSITO.

  3. licristina Says:

    Oi Ana.
    Se você prestou bem atenção ao meu texto, eu defendo os baianos contra o preconceito dos outros brasileiros por meio de uma metáfora-ironia. Também acho que baiano sabe viver. Só discordo sobre os melhores cantores do país serem baianos. Há controvérias. Os melhores são maranhenses que não têm mída: Zeca Baleiro e Rita Robeiro. Abs.

  4. Tânia Says:

    Minha cara,

    Li o seu texto por necessidade acadêmica (pesquiso o discurso higienista, um discurso também racista, travestido da aura da cientificidade, que foi muito popular no século XIX), e confesso, concordo com muito dos seus argumentos, por isto quero acrescentar que, além do problema do sucateamento do espaço físico, a Escola de Medicina, também enfrenta o problema do “sucateamento” das idéias de algum dos seus membros, na medida em que, este membro investe de forma inaceitável, em um discurso descolado da realidade de uma cidade que se reiventou a partir da influência da cultura afro brasileira. O que de modo algum, me causa espanto é que, justamente de um membro desta escola, tenha emergido uma avaliação tão estreitada. Penso que, suas opiniões não são, portanto, derivadas de uma elaboração individual do seu ‘pensamento privilegiado’, mas, resultado de uma formação acadêmica também, pautada na eleição de parãmtros extremamente fechados sobre o que é considerado ’saudável’: ser branco, gostar de música clássica, enfim, apreciar o que é ‘alto’, dentro da costura cultural.


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