Estrada de ferro Carajás

 

Viajar de São Luís a Açailândia no trem da Companhia Vale do Rio Doce é uma descoberta. Primeiro, do trem em si. Pelo menos no que se refere à classe executiva, daqueles que pagam o dobro do que paga quem vai na classe econômica, ninguém pode reclamar de falta de conforto. As poltronas são boas, os vagões são espaçosos e o serviço de bordo é eficiente. Mas isso você pode ler nos textos publicitários da companhia, que diz transportar diariamente cerca de 1.300 pessoas em seus vagões de passageiros. O que você não vai ler em texto publicitário algum é a pobreza extrema do Maranhão rural. Nem a beleza que se revela nas paisagens cortadas por trilhos e dormentes.

 

Em muitos lugares, o único sinal de que existe civilização é o trilho do trem. Verde, em todos os tons, amarelo, vermelho e todo o colorido da natureza, numa transição entre mata dos cocais e floresta amazônica, bichos e muita água: é o que se vê na maior parte do tempo. A engenhosidade humana fez com que os trilhos contornassem alguns montes, atravessassem outros ao meio, olhassem com desdém o fundo do vale embaixo das pontes estrategicamente construídas. O que a engenhosidade humana não fez, porém, foi acabar, ou pelo menos diminuir, a pobreza e a miséria, que se revela ainda em São Luís, na paupérrima zona rural cortada pelo caminho do progresso.

 

Saindo do Anjo da Guarda, a estação, o trem passa por pequenos povoados que quase ninguém sabe que existem. As casinhas tristes, de taipa ou de palha, de porta e janela, anunciam o que se verá ao longo da viagem pelo Maranhão profundo. E ponha casinhas tristes nisso. Fiquei me perguntando se aquelas pessoas, naqueles casebres perdidos no meio do mato, sabem diferenciar a ficção da realidade: será que eles sabem que novela é de mentira e telejornal é (para ser) de verdade? E o luxo que eles vêm na televisão, se à televisão eles tiverem acesso, será que têm noção de que certamente nunca verão algo parecido fora da telinha, porque simplesmente estão condenados àquela vida de isolamento e pobreza por tempo indeterminado?

 

Para muitas dessas pessoas que vivem próximas à ferrovia o trem é a única esperança de que alguém olhe para elas. Os viajantes da classe executiva olham para eles por pouco tempo. Os viajantes da classe econômica olham um pouquinho mais, porque compram seu almoço a um preço bem menor que o vendido no (caro) restaurante do trem. O que me deu certeza de que as crianças dessas localidades sonham em entrar no trem da Vale com destino a uma vida melhor foi o espetáculo de pratinhos de comida, bugigangas, produtos naturais e toda sorte de coisa vendável que meninos, meninas, homens e mulheres maltratados pela roça estrelavam quando o trem parou na hora do almoço em algum lugar depois de Santa Inês.

 

Como dois mais dois são quatro, aqueles meninos e meninas sonham que uma vida melhor pode estar num daqueles vagões. Vai ver quando essas crianças ficam a cismar embaixo de uma sombra qualquer, imaginam que vão crescer, pegar o trem da Vale, ir para a capital ou outra cidade qualquer, arrumar um emprego (de quê?), ganhar dinheiro e voltar naquele mesmo trem para mostrar para todos que um sonho de tornou realidade. Eu torço para que se torne. Infelizmente, é possível que um dia, os filhos e netos dessas crianças tenham o mesmo sonho que seus pais e avós, embaixo de uma árvore, e tendo que acordar quando o apito do trem for ouvido, porque a dura realidade bate à porta.

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2 Comments on “Estrada de ferro Carajás”


  1. É muito triste a realidade desses maranhenses. Mas não precisamos ir muito longe para nos deparar com pessoas que nunca terão acesso à informação, ao conhecimento. Enquanto alguns cientistas olham para além do nosso sistema solar, pessoas como essas, que estamos nos referindo, não sabem nem a dimensão do nosso planeta e onde nos situamos no universo. O mundo, para estas pessoas, termina na rua onde moram (quando existe rua).

    Outro dia comentava com meu pai a respeito disso: não sei se estudar e ter acesso ao conhecimento é bom ou ruim. Declarei isso a ele: “quanto mais a gente estuda, mais certeza a gente tem de que as coisas não têm jeito”. É triste, mas é essa a impressão que eu tenho.

    No entanto, certas pessoas ainda me fazem acreditar que um novo amanhã pode ser diferente. Uma delas é Li-Chang Shuen.

    Li, espero que o trabalho que você inicia agora, em uma nova cidade, possa lograr muitos benefícios não só para você, mas também para o Jornalismo desse estado. Tenho certeza que nós “perdemos” uma grande professora, apesar que nosso trabalho terá continuidade. Mas não podemos ser tão egoístas assim, né? Portanto, acredito que os nossos colegas de Imperatriz ganharam um presente com a sua chegada à essa cidade.

    Um abraço!

  2. Adailton Borba Says:

    Li, esse teu post só lembrou minha infância (que não faz tanto tempo mesmo.. rs).
    Meu pai era maquinhista do trem de passageiros da Vale e eu viajava quase todos os
    anos. Realmente é um cenário um tanto quanto assustador, vimos um dos pedaços mais pobres do Brasil, se não o mais. Eu lembro que sempre fazia desenhos do que eu via ao longo da viagem… os desenhos já foram pro lixo, mas com certeza ficaram na minha memória. Meu destino era sempre Imperatriz, mas uma vez fomos até o Parauapebas, conhecer a serra de Carajás. Ah, detalhe, (morre de inveja) às vezes eu viajava na locomotiva e ainda apertava na buzina do trem. hehehe… Bjs, querida.


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