Crise boliviana ou crise de Morales?
A recente crise boliviana levanta uma questão de fundo: o país está vivendo uma crise institucional por causa das propostas de seu presidente ou é seu presidente que vive uma crise governamental por causa do país que governa?
A resposta a esta questão é algo complicada. Parece que o problema da Bolívia não é Evo Morales, mas o povo. Ou melhor, a parcela do povo que não aceita certos projetos e certos arroubos à la Chávez que tomam o presidente boliviano desde que tomou o poder. Todo governante deveria saber que quando não é eleito por uma maioria absoluta é porque uma grandfe parte da população desconfia de suas propostas. E mesmo uma vitória com qualquer placar não dá ao eleito o direito de governar como se os que o rejeitam simplesmente não existissem e não precisassem ser levados em consideração. Porém, a natureza da crise boliviana revela justamente isso: Morales não leva em consideração aqueles que não votaram nele, aqueles que desconfiam de sua retórica, aqueles que defendem desenvolvimento social e econômico baseado na realidade do país, não em utopias ideológicas do século XIX. E aí está a chave para entender a questão. Morales está certo em defender mais justiça social, mas está errado em seus métodos.
Um exemplo disso foi a aprovação, ilegal, irregular e na surdina, da nova carta constitucional boliviana. Apenas partidários do presidente votaram. A oposição ficou de fora. Foi mudada a regra do quórum constitucional para driblar a impossibilidade de se obter os votos necessários para a aberração jurídica e semântica que ele chama de constituição plurinacional ou qualquer coisa que o valha. Ficou o ranço golpista no paladar daqueles que não querem engolir tamanha afronta institucional. Cinco dos nove governadores decretaram desobediência civil. Isso pode acabar mal, de forma interessantemente parecida com o que acontece na maioria dos países cuja riqueza se assenta nos hidrocarbonetos, em especial a Venezuela e muitos dos países árabes do Oriente Médio. Isso leva a outra questão: de fonte de riqueza, o combustível fóssil parece se transformar em fonte financiadora e mantenedora do autoritarismo. Talvez seja por isso que tem uma meia dúzia de países e governantes de cabelo em pé com os sucessos de países que já apostam na produção de biocombustíveis. É que eles antevêem a mudança do eixo de poder e barganha para outras fronteiras. Daí, querem aproveitar a majestade enquanto a coroa lhes pertence. Mas Morales mal tem a coroa, já que o país é incapaz de explorar suas riquezas fósseis de forma eficiente sem a ajuda dos outros….
Dezembro 10, 2007 at 3:43 am
“Parece que o problema da Bolívia não é Evo Morales, mas o povo”.
Bem, então o problema não é só da Bolívia. O Brasil sofre deste mal também. Por isso que eu digo que, quanto mais a gente estuda, mais a gente “pira”. Motivo: temos consciência de tudo que acontece mas não temos o poder mudar, sozinho, a situação. Ninguém percebe que quem, na realidade, tem o poder nesse negócio é o POVO! =)