Entre a vida e a morte, a obra

Posted Junho 26, 2008 by
Categories: Comentário geral

Dona Ruth Cardoso morreu. De repente, de súbito. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso dividiu a vida com essa mulher extraordinária por mais de cinco décadas e meia. Homem de sorte. Vendo as imagens do velório e do enterro pela televisão, vi no semblante daquele homem uma dor tão profunda quanto inimaginável. E fiquei pensando: quando tudo acabar, quando ele deitar na cama à noite e ver que ninguém colocará a cabeça no travesseiro ao lado, que o lado vai permanecer frio e vazio, esse homem que já teve em suas mãos o destino de uma nação não saberá o que fazer de seu próprio. Estará perdido em lembranças, e tristezas, e saudades. Porém, lhe restará um consolo: a obra de dona Ruth permanecerá, junto com as melhores lembranças que da esposa ele puder guardar.

Antropóloga de renome internacional, dona Ruth foi uma mulher que se preocupou com a condição das mulheres na sociedade. Se preocupou com a condição das crianças, dos homens, dos velhos, do ser humano. Ela dizia que um país que não sabe ler, não pode crescer. Mostrou em sua simplicidade que não bastava ser intelectual, tinha que ser intelectual engajada. E concebeu, como a um filho, o programa Brasil Solidário, que incluía programas de alfabetização e de geração de emprego e renda. Tanta gente saiu da obscuridade ao conseguir decifrar símbolos desenhados no papel. Tanta gente saiu da indigência desenvolvendo capacidades empreendedoras. Mais do que esmolas, ela mostrou que o brasileiro precisa de oportunidades. O bolsa escola, que depois deu origem ao bolsa família do governo Lula, nasceu sob a supervisão intelectual de dona Ruth. Mas não era isolado. Dinheiro a esmo não resolvia os problemas de nossa pobreza, ela sabia disso. E revolucionou os programas sociais deste país tão desigual.

Além da atuação como primeira-dama, discreta porém decisiva, dona Ruth nunca deixou de ser pesquisadora, professora, exemplo. Da série “gostaria de ser essa pessoa quando eu crescer”, dona Ruth lidera minha lista. Cultivar a cultura e o amor ao conhecimento, de forma engajada e não blibliotesca, livresca, foi o grande mérito dessa mulher. Sua obra permanecerá viva. E será testemunho de um Brasil civilizado, em que o combate às desigualdades um dia deixará de ser paternalista para ser desenvolvimentista. Foi o sonho de dona Ruth. É o sonho de todos os brasileiros.

19 horas

Posted Maio 15, 2008 by
Categories: Comentário geral

Nas aulas de jornalismo, especialmente rádio e telejornalismo, os professores de redação reproduzem em sala de aula um ensinamento retirado dos manuais dos pequenos e grandes veículos audiovisuais: a hora, nesses meios, deve ser dada no formato “sete horas da manhã”, “sete horas da noite”. Motivo: nem todo mundo sabe que 19 horas é o mesmo que sete horas da noite. Porém, a Radiobrás invariavelmente começa o seu tradicional A Voz do Brasil com um sonoro “Em Brasília, 19 horas”. É a exceção da regra. Lembrei desse ensinamento básico de redação ao me deparar esta semana com a triste realidade das pessoas que não sabem que 19 horas é o mesmo que sete horas da noite.

 

Estava em um ônibus, saindo de São Luís com destino a Imperatriz, no Sudoeste do Maranhão, quando uma moça com belos traços indígenas e uma criança que aparentava ter uns quatro anos de idade no colo olhou para o bilhete de passagem e me perguntou: dezenove horas é oito horas da noite, né moça? Antes de responder que não, todos os manuais de redação que havia lido quando estudante de graduação me vieram à mente naquele instante, assim como as oficinas de redação promovidas pelos veículos nos quais trabalhei em minha carreira jornalística antes de ingressar na docência do ensino superior. Nunca, em toda a minha vida, havia imaginado que aquele ensinamento era tão básico quanto necessário. Expliquei a ela a correlação das horas entre o meio dia e a meia noite. No povoado onde ela mora, as pessoas ouvem a voz do Brasil, mas não sabem a que horas, exatamente, o programa começa. Aquela voz embargada pela estática característica das transmissões em amplitude modulada que chega aos rádios de pilha das casas do lugar anuncia que na capital do país as pessoas dizem as horas do segundo período do dia de forma misteriosa. Para caboclos do Brasil profundo, aquilo pode ser realmente um mistério. Afinal, os relógios baratos comprados por R$ 1,99 em alguma lojinha de feira só têm marcadores de 1 a 12, de tal forma que 19 horas é coisa de outro mundo.

 

O episódio serviu também para passar parte da vigília que sempre me acompanha em viagens noturnas para refletir sobre as deficiências educacionais deste país. Aquela moça jamais foi à escola. Notava-se pela forma como ela “conjugava” os verbos e “concordava” os elementos das frases. Fazia uso de um português tão instrumental quanto incompreensível em algumas ocasiões. O jeito simples de vestir e a maneira acabrunhada de falar denunciavam também o sentimento de inferioridade diante de pessoas que aparentavam ter lido uma meia dúzia de livros na vida. Para ela, assinar o próprio nome e ser capaz de ler os itinerários dos ônibus já era coisa de literato. Pobre moça. Tão bela e tão condenada a uma vida na obscuridade da ignorância. Devia ter uns 20 anos, se muito. Ainda há tempo para corrigir tamanha injustiça, tamanha condenação. Mas, onde ela mora há escolas que oferecem educação para jovens e adultos? E se há, o governo promove alguma campanha para informar isso aos que necessitam? Promove também campanhas para incentivar a matrícula e a freqüência dessas pessoas?

 

Uma campanha de promoção da educação de jovens e adultos é tão necessária quanto as escolas. Porque pessoas que acreditam já ter passado da idade de ir à sala de aula aprender a ler a escrever sentem vergonha de sua condição de analfabetos. São pessoas que se intimidam tendo que empunhar cadernos e lápis de ensino fundamental quando seus próprios filhos e netos já o fazem. Na mente simples dessas pessoas, é como perder a autoridade diante dos descendentes por admitir a ignorância e se submeter aos ditames de uma “tia” que de repente é muitos anos mais moça que os alunos. Porém, é necessário. O locutor da Voz do Brasil, afinal, não pode informar as horas somente para pessoas que leram uma meia dúzia de livros nos centros urbanos.

QI, berimbau e preconceito

Posted Maio 1, 2008 by
Categories: Comentário geral

A fama de preguiçoso é patrimônio cultural do baiano. Mas creditar à preguiça e a uma suposta inferioridade intelectual inata dos estudantes a baixa nota obtida pelo tradicional curso de medicina da Universidade Federal da Bahia é, pelo menos, preconceito. Preconceito contra os alunos cotistas e pelos demais, preconceito contra a herança cultural de um povo que elegeu o berimbau como instrumento de identidade coletiva.

 

O coordenador do curso, Antônio Natalino Dantas, cometeu vários equívocos e um crime ao comentar o resultado do curso no Enade. Em sua avaliação equivocada, ele não levou em consideração os verdadeiros motivos da pífia nota 2: o curso está sucateado e os alunos aproveitaram o exame para protestar com a única arma que tinham, o boicote. Deixar de resolver o exame é uma forma eficiente de chamar a atenção para uma realidade comum às universidades públicas deste país. Os cursos, em sua maioria, não passam de sucatas, com professores que muitas vezes fingem que dão aula em salas que todo mundo finge que são laboratórios para alunos que fingem que daquele jeito é possível aprender. Não sou a favor de boicotes. Em minha época de graduação, não “colei” no provão do então ministro Paulo Renato de Sousa. Colar no provão era responder às questões colocando um adesivo de protesto na folha em branco. Porém, o protesto dos alunos da UFBA, que foi entendido como burrice crônica e contagiosa, fez efeito. Chamou a atenção para o fato de que aquela tradicional escola de medicina, a mais antiga do país, não passa de um amontoado de sucata. E esperam que algo seja feito para melhorar a qualidade do processo de ensino-aprendizagem. Afinal, em última instância, esse debate interessa é aos futuros pacientes desses futuros médicos.

 

Já afirmar categoricamente que o fato de ter um instrumento de uma corda só como símbolo da cultura popular é prova incontestável da falta de inteligência daquele povo é preconceito que traz em seu bojo o racismo. E racismo é crime. Por que racismo? Porque berimbau é um símbolo da cultura afro-brasileira. Ou seja, é coisa de preto. O discurso do professor é claro: os alunos foram mal na prova porque são negros e negros são desprovidos de inteligência e só não vê quem não quer porque os negros são capazes de tocar apenas um instrumento de uma corda só, coisa de quem tem “um único neurônio”. O que talvez ainda não tenha sido dito ao caro colega é que tocar berimbau é tão difícil quanto tocar qualquer outro instrumento de corda. Talvez até mais difícil, já que tem apenas uma única corda de onde várias notas devem ser produzidas. O baiano pode até ser o preguiçoso que a anedota nacional prega, mas desprovido de inteligência, não. Já o preconceito, este sim tem um QI questionável.

Estrada de ferro Carajás

Posted Abril 24, 2008 by
Categories: Comentário geral

 

Viajar de São Luís a Açailândia no trem da Companhia Vale do Rio Doce é uma descoberta. Primeiro, do trem em si. Pelo menos no que se refere à classe executiva, daqueles que pagam o dobro do que paga quem vai na classe econômica, ninguém pode reclamar de falta de conforto. As poltronas são boas, os vagões são espaçosos e o serviço de bordo é eficiente. Mas isso você pode ler nos textos publicitários da companhia, que diz transportar diariamente cerca de 1.300 pessoas em seus vagões de passageiros. O que você não vai ler em texto publicitário algum é a pobreza extrema do Maranhão rural. Nem a beleza que se revela nas paisagens cortadas por trilhos e dormentes.

 

Em muitos lugares, o único sinal de que existe civilização é o trilho do trem. Verde, em todos os tons, amarelo, vermelho e todo o colorido da natureza, numa transição entre mata dos cocais e floresta amazônica, bichos e muita água: é o que se vê na maior parte do tempo. A engenhosidade humana fez com que os trilhos contornassem alguns montes, atravessassem outros ao meio, olhassem com desdém o fundo do vale embaixo das pontes estrategicamente construídas. O que a engenhosidade humana não fez, porém, foi acabar, ou pelo menos diminuir, a pobreza e a miséria, que se revela ainda em São Luís, na paupérrima zona rural cortada pelo caminho do progresso.

 

Saindo do Anjo da Guarda, a estação, o trem passa por pequenos povoados que quase ninguém sabe que existem. As casinhas tristes, de taipa ou de palha, de porta e janela, anunciam o que se verá ao longo da viagem pelo Maranhão profundo. E ponha casinhas tristes nisso. Fiquei me perguntando se aquelas pessoas, naqueles casebres perdidos no meio do mato, sabem diferenciar a ficção da realidade: será que eles sabem que novela é de mentira e telejornal é (para ser) de verdade? E o luxo que eles vêm na televisão, se à televisão eles tiverem acesso, será que têm noção de que certamente nunca verão algo parecido fora da telinha, porque simplesmente estão condenados àquela vida de isolamento e pobreza por tempo indeterminado?

 

Para muitas dessas pessoas que vivem próximas à ferrovia o trem é a única esperança de que alguém olhe para elas. Os viajantes da classe executiva olham para eles por pouco tempo. Os viajantes da classe econômica olham um pouquinho mais, porque compram seu almoço a um preço bem menor que o vendido no (caro) restaurante do trem. O que me deu certeza de que as crianças dessas localidades sonham em entrar no trem da Vale com destino a uma vida melhor foi o espetáculo de pratinhos de comida, bugigangas, produtos naturais e toda sorte de coisa vendável que meninos, meninas, homens e mulheres maltratados pela roça estrelavam quando o trem parou na hora do almoço em algum lugar depois de Santa Inês.

 

Como dois mais dois são quatro, aqueles meninos e meninas sonham que uma vida melhor pode estar num daqueles vagões. Vai ver quando essas crianças ficam a cismar embaixo de uma sombra qualquer, imaginam que vão crescer, pegar o trem da Vale, ir para a capital ou outra cidade qualquer, arrumar um emprego (de quê?), ganhar dinheiro e voltar naquele mesmo trem para mostrar para todos que um sonho de tornou realidade. Eu torço para que se torne. Infelizmente, é possível que um dia, os filhos e netos dessas crianças tenham o mesmo sonho que seus pais e avós, embaixo de uma árvore, e tendo que acordar quando o apito do trem for ouvido, porque a dura realidade bate à porta.

De novo, os assassinos

Posted Dezembro 27, 2007 by
Categories: Comentário geral

Benazir Bhutto foi assassinada em mais um ato terrorista no Paquistão. Só este ano, 800 pessoas perderam a vida no país de Pervez Musharraf graças aos fundamentalismos em infestam aquela parte do mundo. A mulher, primeira premiê do mundo islâmico, pagou um preço muito alto por ser mulher, política, progressista e desafiadora em um mundo dominado pelos homens, seus conservadorismos e seus fundamentalismos.

Bhutto tinha, além de um capital político expressivo, um poder simbólico quase inigualável neste mundo islâmico. Não negava sua condição mulçulmana, mas lutava por coisas que nós mulheres ocidentais já nem lembramos mais que são caras de tão corriqueiras na maioria de nossos lares: igualdade entre homens e mulheres, cidadania, direitos humanos. Coisas tão simples, mas que lhe custaram a vida. Uma pena.

Terroristas são assassinos

Posted Dezembro 11, 2007 by
Categories: Comentário geral

Hoje pelo menos 47 pessoas morreram em um duplo atentado em Argel, a sofrida capital da pobre Argélia. Não há nada oficial, mas as notícias dão conta de que os atentados são obra de assassinos da Al Qaeda no Magreb. Sim, eles não são militantes, esse eufemismo que esquerdas irresponsáveis usam para mascarar os assassinos frios que dizem lutar por uma causa que acreditam ser justa. O que justifica explodir um ônibus lotado de estudantes, como aconteceu hoje? O que justifica explodir funcionários da ONU que, bem ou mal, estão ali tentando ajudar a pôr ordem ao caos argelino? Obscurantismos políticos, ideológicos ou religiosos devem ser chamados pelo nome. Nesse caso, o obscurantismo tem nome certo e forte: assassinato a sangue frio.

Crianças indo para a escola não têm culpa sobre disputas civis, militares, econômicas ou religiosas. Pessoas tentando levar uma vida digna são apenas pessoas. E por serem apenas pessoas, são alvos de mentes insanas. Gente que sente prazer em matar. Só assassinos sentem prazer em matar. Quem quer mudar alguma coia, melhorar alguma coisa, pensa primeiro na vida, não glorifica a morte. Isso é insano. Mais insano ainda é encontrar, aqui e acolá, defensores dessas práticas, especialmente aqui no Ocidente, dito civilizado. Quem apóia atos terroristas é tão assassino quanto quem se explode em meio a crianças, mulheres, idosos, civis.

O atentado de hoje, por ter como alvo também instalações da ONU, trouxe à lembrança um outro, acontecido em 2003 no Iraque e que tirou a vida do brasileiro Sérgio Vieira de Melo. Lembra também o fracasso da ONU em se impor como organização respeitada e acima de qualquer bandeira, seja ela geopolítica, cultural ou ideológica. A ONU hoje parece não mais inspirar respeito. Parece uma intrusa nos lugares onde é chamada a intervir, seja de que forma for. É assim na África, onde a maior luta da organização é contra a Aids, é assim nos Bálcãs, onde a guerra civil é tão endêmica quanto qualquer doença. Também é assim em qualquer lugar do mundo onde os conflitos sejam tão agudos e ao mesmo tempo tão crônicos que ela não consegue dar uma resposta baseada em duas medidas, um mesmo peso. Já está passando da hora da ONU se reformar e voltar a ser relevante. Se para não acabar de vez com o flagelo dos atentados terroristas, pelo menos para se fazer respeitar e deixar de ser alvo deles.

Crise boliviana ou crise de Morales?

Posted Dezembro 9, 2007 by
Categories: Política internacional

A recente crise boliviana levanta uma questão de fundo: o país está vivendo uma crise institucional por causa das propostas de seu presidente ou é seu presidente que vive uma crise governamental por causa do país que governa?

A resposta a esta questão é algo complicada. Parece que o problema da Bolívia não é Evo Morales, mas o povo. Ou melhor, a parcela do povo que não aceita certos projetos e certos arroubos à la Chávez que tomam o presidente boliviano desde que tomou o poder. Todo governante deveria saber que quando não é eleito por uma maioria absoluta é porque uma grandfe parte da população desconfia de suas propostas. E mesmo uma vitória com qualquer placar não dá ao eleito o direito de governar como se os que o rejeitam simplesmente não existissem e não precisassem ser levados em consideração. Porém, a natureza da crise boliviana revela justamente isso: Morales não leva em consideração aqueles que não votaram nele, aqueles que desconfiam de sua retórica, aqueles que defendem desenvolvimento social e econômico baseado na realidade do país, não em utopias ideológicas do século XIX. E aí está a chave para entender a questão. Morales está certo em defender mais justiça social, mas está errado em seus métodos.

Um exemplo disso foi a aprovação, ilegal, irregular e na surdina, da nova carta constitucional boliviana. Apenas partidários do presidente votaram. A oposição ficou de fora. Foi mudada a regra do quórum constitucional para driblar a impossibilidade de se obter os votos necessários para a aberração jurídica e semântica que ele chama de constituição plurinacional ou qualquer coisa que o valha. Ficou o ranço golpista no paladar daqueles que não querem engolir tamanha afronta institucional. Cinco dos nove governadores decretaram desobediência civil. Isso pode acabar mal, de forma interessantemente parecida com o que acontece na maioria dos países cuja riqueza se assenta nos hidrocarbonetos, em especial a Venezuela e muitos dos países árabes do Oriente Médio. Isso leva a outra questão: de fonte de riqueza, o combustível fóssil parece se transformar em fonte financiadora e mantenedora do autoritarismo. Talvez seja por isso que tem uma meia dúzia de países e governantes de cabelo em pé com os sucessos de países que já apostam na produção de biocombustíveis. É que eles antevêem a mudança do eixo de poder e barganha para outras fronteiras. Daí, querem aproveitar a majestade enquanto a coroa lhes pertence. Mas Morales mal tem a coroa, já que o país é incapaz de explorar suas riquezas fósseis de forma eficiente sem a ajuda dos outros….

!No!

Posted Dezembro 3, 2007 by
Categories: Política internacional

Que as posições políticas na Venezuela estavam polarizadas, ninguém duvida. Que Hugo Chávez reconheceria uma derrota no referendo, isso causou surpresa. O líder “bolivarista” estava visivelmente pouco à vontade ao reconhecer a derrota, “por enquanto”, de seu projeto de autoritarismo do século XXI. Autoritarismo que se quer constitucional, diga-se de passagem. A oposição agora está mais cautelosa do que nunca, afinal, sabe que a derrota pode ter sido a senha para que o caudilho dê um golpe tipicamente latino americano nas instituições do país. Ele pode alegar interesse nacional de força maior. No caso, sua perpetuação no poder, típico de sua personalidade megalomaníaca. Amanhã ele pode acordar e dizer: parem tudo! O não venceu por causa de uma conspiração norte-americana! Quem sabe até a queda corintiana ele não tente explicar da mesma forma, para ajudar a consolar o inconsolável corintiano Lula.

Há que ter cuidado com os ventos que sopram da Venezuela. A democracia, por pior que seja, ainda é o melhor regime político. Desvirtuá-la em nome de uma revolução baseada em amadorismos do século XIX pode ser um típico tiro a sair pela culatra. E de culatras, Caracas está ficando bem servida com o plano de rearmamento que Chavito está levando a cabo. Fanfarrão como ele só, não aguentará tão facilmente dois “por que não te calas” em menos de um mês. Mas, por enquanto, é bom ter o mocinho calado, ou pelo menos, vociverando mais baixo. Por enquanto….

Agonia? Não no Morumbi!

Posted Dezembro 3, 2007 by
Categories: Comentário geral

O futebol é mesmo uma caixinha de cichês! Mal o Corinthians consolidava sua queda para a segundona os clichês começaram a proliferar como formigas diante do açúcar derramado. Segunda, esperai-os! Nação corintiana, nação sofredora. O milagre que se esperava aconteceu no Mané Garrincha, não no Olímpico. Pobre curintia, que agora vê conspirações, maldições, mal-interpretações por todos os lados. Não sei se é hora de sentir muito, afinal, eles apenas colheram os frutos, esse clichê….

Para os são-paulinos, e eu sou uma, 2007 foi um ano e tanto: vencemos o brasileirão nas duas pontas da tabela. Fomos pena e ainda vimos nosso arqui-rival amargar uma queda inimaginável, mas previsível. Lamentação, existe apenas para o jovem Felipe, único que não merecia tanta agonia. Foi o único homem no time após a derrota: falou com a imprensa, não jogou a culpa em ninguém, foi mais um entre milhões de sofredores alvi-negros. Uma pena para um jogador tão digno. Um bem-feito para um clube que este ano se comportou mais amadoramente que os times daqui do Maranhão. Acho que o curingão tem algo a aprender com o Palmeiras, com o Botafogo, com o Grêmio, com o Fluminense….

Camisa não ganha jogo. Torcida não ganha jogo. Organização, dentro e fora de campo, sim.

Mas, quer saber, isso não é problema meu. Meu problema agora é dar conta de conferir os troféus que o melhor time do país guarda lá no Morumbi…. 

Reflexões sobre a política externa brasileira I

Posted Novembro 28, 2007 by
Categories: Política externa

O fim da Guerra Fria significou o fim de uma era: a era das polarizações definidas. Porém, não inaugurou uma outra era a ser definida por uma única palavra ou conceito abrangente. Inaugurou, sim, uma era de transição, ou em transição, em que partes do velho ainda insistem em ser relevantes, e partes do novo apenas se delineiam no horizonte. Para a política externa dos países, em especial a do Brasil, esse novo momento significou uma mudança de postura operada na impossibilidade de previsão do que viria a seguir. Novos temas passaram a ocupar a agenda internacional e a diplomacia não podia ficar, como não ficou, sem um posicionamento que refletisse essas novas demandas da agenda. A política externa brasileira deixou de ser reativa e defensiva para se tornar mais positiva e propositiva.

Durante as décadas de 1970 e 1980, a política externa reage e se defende dos conceitos e visões da comunidade internacional acerca do país. Era a época em que a dívida do Brasil com a humanidade não era apenas monetária, mas também moral e ambiental. A crise da dívida dos anos 80 deixou o país vulnerável às pressões internacionais, tanto econômicas quanto financeiras. A política externa tinha que dar uma resposta à comunidade financeira internacional e reagir aos ataques dirigidos contra a seriedade das instituições monetárias, de política econômica e fiscal nacionais. Sem recursos para quitar as obrigações da dívida, o Brasil entrou para o indesejável grupo de países não confiáveis.

Essa desconfiança econômica e financeira acabou por acarretar uma desconfiança moral. O Brasil passou a ter que se defender, também, das acusações de violações aos direitos humanos e de destruição do meio ambiente, capitaneadas pelos escândalos de chacinas, assassinatos e abandono das populações mais carentes e pelo crescimento inegável do desmatamento da Amazônia e da poluição de rios e cidades. Com o país atacado por todos os lados, a política externa pouco pode fazer além de formular uma política de reação e de defesa, organizando um discurso que convencesse a comunidade internacional de que o quadro, afinal, não era tão ruim assim, de que algo estava sendo feito e de que a situação logo mudaria.

E, de fato, mudou. Não apenas pelas políticas internas adotadas com vistas a suavizar a situação de risco em que população, meio ambiente e economia se encontravam, mas também porque a postura da política externa tomou outros rumos, inclusive como resposta à própria mudança de postura da comunidade internacional em relação a um país que dava mostras de buscar recuperar uma imagem de certa forma desgastada. Mudou ainda por causa da inclusão de novos temas e de novos atores, ou vítimas, preferenciais da crítica internacional. A partir da segunda metade da década de 1990, com uma economia mais forte e com credibilidade financeira recuperada, os ataques derivados da situação de descontrole dos anos 80 diminuíram sensivelmente. A política externa pôde se ocupar de desenvolver novas táticas de inserção e de convivência do Brasil na comunidade internacional.

A partir de então, a postura passou a ser mais positiva, no sentido de aceitar novos regimes internacionais e ver neles oportunidades de crescimento – a exemplo da criação da OMC –, e mais propositiva, no sentido de não esperar que outros atores internacionais propusessem os temas a serem apreciados na agenda, mas também de sugerir linhas de ação, temas, regras e nuances que pudessem contribuir para a harmonização do sistema de relações internacionais. O fortalecimento econômico do país teve como conseqüência o fortalecimento da política externa, especialmente em setores sensíveis como o meio ambiente e os direitos humanos. Foi um ganho qualitativo que liberou os formuladores de política externa da contingência de elaborar respostas e defesas satisfatórias contra acusações que não apenas denegriam a imagem do país como emperravam a agenda externa brasileira.

Em conclusão, é possível afirmar que o aprendizado das décadas de reação e defesa da política externa foram substituídas por uma era de maior articulação e de melhores resultados nas negociações internacionais a respeito dos mais variados temas. A nova postura levou o Brasil a ser visto como um país com mais credibilidade, cuja voz deveria ser ouvida em uma série de temas e cuja participação em esforços conjuntos internacionais passou a ser demandada com mais freqüência. Não foi por acaso que a participação da diplomacia brasileira em fóruns multilaterais, muitas vezes em situação de liderança, tornou-se decisiva para a obtenção de resultados favoráveis ao país e àqueles que com ele compartilhavam a mesma visão dos processos em apreciação na agenda internacional.