Entre a vida e a morte, a obra
Posted Junho 26, 2008 byCategories: Comentário geral
Dona Ruth Cardoso morreu. De repente, de súbito. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso dividiu a vida com essa mulher extraordinária por mais de cinco décadas e meia. Homem de sorte. Vendo as imagens do velório e do enterro pela televisão, vi no semblante daquele homem uma dor tão profunda quanto inimaginável. E fiquei pensando: quando tudo acabar, quando ele deitar na cama à noite e ver que ninguém colocará a cabeça no travesseiro ao lado, que o lado vai permanecer frio e vazio, esse homem que já teve em suas mãos o destino de uma nação não saberá o que fazer de seu próprio. Estará perdido em lembranças, e tristezas, e saudades. Porém, lhe restará um consolo: a obra de dona Ruth permanecerá, junto com as melhores lembranças que da esposa ele puder guardar.
Antropóloga de renome internacional, dona Ruth foi uma mulher que se preocupou com a condição das mulheres na sociedade. Se preocupou com a condição das crianças, dos homens, dos velhos, do ser humano. Ela dizia que um país que não sabe ler, não pode crescer. Mostrou em sua simplicidade que não bastava ser intelectual, tinha que ser intelectual engajada. E concebeu, como a um filho, o programa Brasil Solidário, que incluía programas de alfabetização e de geração de emprego e renda. Tanta gente saiu da obscuridade ao conseguir decifrar símbolos desenhados no papel. Tanta gente saiu da indigência desenvolvendo capacidades empreendedoras. Mais do que esmolas, ela mostrou que o brasileiro precisa de oportunidades. O bolsa escola, que depois deu origem ao bolsa família do governo Lula, nasceu sob a supervisão intelectual de dona Ruth. Mas não era isolado. Dinheiro a esmo não resolvia os problemas de nossa pobreza, ela sabia disso. E revolucionou os programas sociais deste país tão desigual.
Além da atuação como primeira-dama, discreta porém decisiva, dona Ruth nunca deixou de ser pesquisadora, professora, exemplo. Da série “gostaria de ser essa pessoa quando eu crescer”, dona Ruth lidera minha lista. Cultivar a cultura e o amor ao conhecimento, de forma engajada e não blibliotesca, livresca, foi o grande mérito dessa mulher. Sua obra permanecerá viva. E será testemunho de um Brasil civilizado, em que o combate às desigualdades um dia deixará de ser paternalista para ser desenvolvimentista. Foi o sonho de dona Ruth. É o sonho de todos os brasileiros.