Para todo amante de boa literatura, filmes baseados em obras de sucesso tendem a decepcionar. É um tal de adapta roteiro daqui, de encolhe dali, de mutila diálogos em toda parte e, pior, de mudar detalhes que são essenciais na história para caber melhor no figurino cinematográfico. Não é o caso de “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, uma co-produção sueca, dinamarquesa e alemã dirigida pelo sueco Niels Arden Oplev e que entrou em cartaz esta semana no Brasil. O filme é a adaptação da primeira parte da trilogia Millenium, do escritor sueco Stieg Larsson. Best seller mundial.
O que mais surpreende no filme é a forma como o diretor encadeia as ações. A sensação é de que o espectador está lendo o livro outra vez, apenas poupando o esforço de imaginação porque as cenas, a música e os atores fazem isso por ele. Os detalhes suprimidos (como o romance de Mikael com Érica, sua editora na revista Millenium, e com Cecília, neta de Henrik Vanger) não prejudicam o entendimento de quem não leu o livro nem frustram quem o leu. Sem malabarismos hollywoodianos, a direção é extremamente clássica, porém muito eficiente. Como nem tudo é perfeito, Oplev escorrega em duas ou três cenas em clichês de filmes de suspense, mas nada que comprometa o conjunto. Afinal, o filme é uma leitura em voz alta e coletiva de uma grande história de suspense.
É impossível não falar da fotografia. Sombra e luz em harmonia para criar o clima adequado em cada cena, com escolhas clássicas e algumas até previsíveis, dão ao filme um ar atemporal. Em algumas passagens é possível fazer relação com grandes clássicos do cinema europeu (como Oito Mulheres, de Fraçois Ozon, que também trata do mistério em torno de um assassinato em família). As tomadas curtas e os enquadramentos dos personagens ao melhor estilo “retrato” empresta um clima intimista ao filme, como se o público estivesse muito próximo de cada personagem – e realmente está, já que a maior parte dos espectadores certamente terá lido o livro antes. O recurso de desfocar completamente o fundo quando determinado personagem está em primeiro plano, em close, aumenta a carga dramática: o personagem está só com seus pensamentos, com seus problemas, com suas frustrações, com suas descobertas. O mundo é mero detalhe. Poucos filmes adotam esse tipo de solução fotográfica com tamanha competência.
As atuações, porém, são o que há de mais valioso em Os Homens que Não Amavam as Mulheres. Noomi Rapace como Lisbeth Salander, alter-ego de qualquer garota inteligente e de certa forma perturbada e auto-isolada da sociedade por violências sofridas no passado, é a própria Lisbeth. A atriz de 30 anos dá vida à hacker que importa-se muito pouco com as pessoas e até com ela mesma. O que importa para Lisbeth é a solução de um mistério, seja ele qual for. O olhar de Noomi ao encarnar a raivosa Lisbeth vendo seus pesadelos tornando-se realidade outra vez (abuso sexual) é impagável. Você sente o ódio, sente o horror, sente a dor, sente a tempestade de vingança que se aproxima. Assim como sente a ternura que ela emana quando sente-se segura e o desconforto que a incomoda quando sente seu mundinho ser invadido por Mikael (tanto literalmente, quando ele a aborda em seu caótico apartamento, quanto quando eles dividem a mesma cama e ela não sabe o que fazer com o homem após o contato sexual). De novo, impagável.
A condução das cenas de forma hábil, a excelente atuação dos personagens e o roteiro que em si já valeria a ida ao cinema, faz com que os 153 minutos de projeção passem como se fossem apenas alguns instantes de prazer estético. Não cansa. Não dá vontade de cochilar, nem de desviar a atenção sequer para a pipoca ao lado.


Casa de taipa, coberta de palha, quase sem mobília e crianças que se assustam ao perceber que são objeto de curiosidade. As fotografias que ilustram este post, feitas por Joedson Silva no último fim de semana, me fizeram recordar de um episódio triste acontecido há uns quatro ou cinco anos. Uma equipe de reportagem na emissora de televisão na qual eu trabalhava encontrou nessa região tida por muitos como uma amostra do paraíso algumas crianças vivendo em condições mais que desumanas, animalescas. O repórter Sidney Pereira mostrou a história de pequenos seres humanos com os pés e mãos infestados de pequenos e incômodos invasores, que aqui chamamos popularmente de bichos-de-porco, vermes que se encravam na pele e consomem o tecido subcutâneo, provocando infecções e dores terríveis. As crianças mal podiam andar. Precisaram ser levadas para a capital, São Luís, para a retirada dos bichos. A extrema pobreza e o descaso em que as crianças viviam, dentro de uma área tão rica e cobiçada, chocava. Dormiam no chão de terra batida, comiam quando tinham sorte, bebiam uma água amarelada sem nenhum tipo de tratamento. Só podiam estar doentes mesmo.