Tão perto do paraíso, tão longe de Deus.

Posted Agosto 3, 2009 by Li-Chang Shuen
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O turismo na região poderia ser usado para amenizar a pobreza

O contraste entre a beleza e a miséria é algo chocante, embora muitas vezes pareça poético quando captado pelas lentes de uma máquina fotográfica. A região dos Lençóis Maranhenses é uma das mais belas e ao mesmo tempo mais pobres do país. A imensidão branca pontuada aqui e ali por lagoas esverdeadas e azuladas, sob um imenso céu de profundo azul, é de uma plasticidade aterradora. Tão bela, tão sublime, tão apaixonante. Ao redor, nas cidades e povoações que o circundam, reina a mais absoluta pobreza, também pontuada aqui e ali por oásis de luxo e conforto que toda região turística sabe, com maestria, exibir. Os frutos da explosão da indústria do turismo, porém, ainda não conseguiram ser colhidos por toda a população daquela área. Os municípios ainda oferecem serviços precários, quase não há rede de saneamento básico, a urbanização é incipiente, o sistema de transporte é uma inexistência agravada pela configuração natural da região (quem é o louco que vai asfaltar as trilhas que levam às mais belas lagoas dos Lençóis?), o nível de emprego é aquele da subsistência e o resultado é algo próximo à fotografia abaixo.

A pobreza só é poética em um filme 35mmCasa de taipa, coberta de palha, quase sem mobília e crianças que se assustam ao perceber que são objeto de curiosidade. As fotografias que ilustram este post, feitas por Joedson Silva no último fim de semana, me fizeram recordar de um episódio triste acontecido há uns quatro ou cinco anos. Uma equipe de reportagem na emissora de televisão na qual eu trabalhava encontrou nessa região tida por muitos como uma amostra do paraíso algumas crianças vivendo em condições mais que desumanas, animalescas. O repórter Sidney Pereira mostrou a história de pequenos seres humanos com os pés e mãos infestados de pequenos e incômodos invasores, que aqui chamamos popularmente de bichos-de-porco, vermes que se encravam na pele e consomem o tecido subcutâneo, provocando infecções e dores terríveis. As crianças mal podiam andar. Precisaram ser levadas para a capital, São Luís, para a retirada dos bichos. A extrema pobreza e o descaso em que as crianças viviam, dentro de uma área tão rica e cobiçada, chocava. Dormiam no chão de terra batida, comiam quando tinham sorte, bebiam uma água amarelada sem nenhum tipo de tratamento. Só podiam estar doentes mesmo.

Mais do que vermes, mais do que fome, o descaso é o que estava matando aquelas crianças. Como isso pode acontecer é que á algo difícil de explicar, especialmente em uma região promissora, que recebe a cada ano um fluxo maior de turistas. Vai ver que manter seres humanos naquelas condições é uma forma de garantir uma atração exótica a mais para europeus e brasileiros abastados que vão até lá deixar seu dinheiro que, no fim, é mal-versado por políticos que têm pouca ou nenhuma consideração com aqueles que sustentam, verdadeiramente, suas mordomias ao custo da indigência e da desesperança.

Enquanto isso em São Paulo…

Posted Agosto 3, 2009 by Li-Chang Shuen
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O governo de São Paulo pretende alavancar uma revolução na rede estadual de ensino com uma idéia simples: valorizar os professores competentes por meio de aumentos salariais baseados no mérito. De acordo com informações da Folha de S.Paulo, pela proposta um professor poderá se aposentar com um salário de R$ 7 mil, mais bônus acumulados. Os professores passarão a ser submetidos a avaliações para merecer o aumento salarial. Se o projeto for aprovado e colocado em prática, será um passo importante para atrair talentos para a rede estadual, que passará a pagar mais, e para reduzir a influência de sindicatos partidários e politiqueiros que não hesitam em convocar greves políticas que nem ajudam a melhorar as condições de trabalho dos professores nem as condições de aprendizagem dos alunos.

Aumentar significativamente o salário dos professores, porém, não basta para elevar a qualidade do ensino nas escolas públicas, nem em São Paulo, nem em lugar nenhum do país. É preciso investir também em infra-estrutura, em bibliotecas, em escolas limpas e arejadas, em ambientes saudáveis e em sistemas pedagógicos que de fato garantam ao professor e ao aluno condições de desenvolvimento pleno. Também é preciso investir no aluno: acompanhamento pedagógico, distribuição de livros didáticos de qualidade, premiação aos melhores para que se estimule a competição saudável e torne a escola mais atraente que as ruas e a criminalidade que os jovens encontram nela. É preciso ter em mente que não basta ter professores bem pagos e belas escolas, mas também alunos estimulados e estimulantes – como professora, sinto-me completamente desestimulada diante de uma turma que não demonstra o menor interesse em apreender o conteúdo além do necessário para a aquisição de um diploma. Sejamos realistas: a humanidade funciona melhor com um sistema de estímulo-recompensa, em qualquer setor, e não seria diferente na relação ensino-aprendizagem.

Nordeste, problema do Brasil? Não seria o Brasil o problema do Nordeste?

Posted Julho 31, 2009 by Li-Chang Shuen
Categories: Eu mereço?

No site da revista Época tem uma interessante matéria sobre a “Sarneylândia”, o Maranhão. Por acaso, nasci e me criei nessa Sarneylândia. Comecei a ler os comentários dos internautas quando me deparei com um, no mínimo, preconceituoso, depois seguido de vários no mesmo tom. Argumentava um cidadão que enquanto eles (o Sudeste) trabalhavam, nós (os nordestinos) roubávamos. Outro dizia que o que atrasa o país é o Nordeste. Que no Nordeste as pessoas são mais corruptas porque os políticos mais envoltos em escândalos seriam dessa região. Ah, amigo, então, aí no Sudeste não existem pessoas, seres humanos, apenas primatas bárbaros, porque a maior parte dos crimes bárbaros deste país são cometidos justamente nas metrópoles cosmopolitas, ricas e sem problemas – e sem corruptos – do Sudeste. Aqui tem corrupto, mas ninguém arrasta uma criança presa a um carro até a morte. Nem joga sua própria filha da janela do apartamento e depois tenta colocar a culpa em um pedreiro que, se duvidar, é nordestino.

Esse tipo de generalização que alguns leitores de Época fizeram mostra o quanto este país é uma ilusão. Ilusão de nação, sem solidariedade entre as partes. Alguém escreveu lá que aqui temos um nível acadêmico inferior. Na verdade, temos poucas universidades porque a União não tem feito muita coisa para mudar isso. Olhem, porém, ao seu redor em suas universidades douradas e cheias de PHDeuses aí no Sudeste e vejam o tanto de nordestinos e nortistas que estão aí, destacando-se e contribuindo para o crescimento acadêmico deste país. Quantos nordestinos saem de suas casas, para sentir saudades de suas famílias, e voltarem com títulos de mestres e doutores com louvor, apesar de todas as dificuldades. Determinismo geográfico, sinceramente, não cola.

Políticos ruins existem em todos os rincões deste país, de norte a sul. Criminosos desalmados também. Gente boa, capaz, trabalhadora e honesta, idem. Certamente essas pessoas que acreditam ser o Nordeste o grande problema do Brasil nunca sequer pisaram aqui, para ver que aquilo que eles lêem no jornal ou vêem pela TV, estereótipos de pobreza, não é muito diferente do que pode ser encontrado também em qualquer cidade do Sudeste. E que há mais riqueza aqui do que supõe o vão preconceito. Se o Nordeste fosse tão ruim, porque será que há tantos paulistas, fluminenses, mineiros, capixabas, sulistas, mudando-se para nossas cidades, do litoral ao interior? Eles fogem de um sonho destruído pela violência, pelo desemprego e pela – também lá – corrupção, ou correm atrás de uma vida em que apesar da dureza, há beleza? Brasil, Brasil. Seu problema não é o Nordeste. São as pessoas de mente tacanha. Infelizmente, não é só no Nordeste que elas existem.

Escrever com a luz, iluminar a alma

Posted Julho 31, 2009 by Li-Chang Shuen
Categories: Comentário geral

O sol escreve sua poesia, nós a imortalizamos
O sol escreve sua poesia, nós a imortalizamos

Imortalizar momentos grandiosos ou simples momentos do dia-a-dia sempre esteve no horizonte da humanidade. Antes de aprender a escrever, o homem já desenhava. A imagem era a reprodução do vir a ser, do desejo do homem primitivo em garantir caça e segurança para seu grupo. A imagem sofreu interditos (especialmente durante a fase do chamado cristianismo primitivo, assim como durante a Idade Média e até hoje no mundo islâmico). Ela, porém, resistiu e transformou-se na metáfora da vida cotidiana. Mesmo usando palavras, estamos construindo imagens.

A fotografia não substitui a pintura como expressão artística imagética, apenas cria outra expressão artística. Mesmo aquela fotografia mais comum, feita com uma câmera simples, sem grandes recursos, feita com um mínimo conhecimento técnico, tem sua magia, tem sua arte. Escrever com a luz não é um simples clicar, um simples focar e apertar botões. Ali, naquele momento, estamos capturando uma alma, uma essência. Em sua sabedoria simples, pessoas mais velhas ainda relutam em serem fotografadas por medo de “aquela coisa” capturar suas almas. E “aquela coisa” o faz, realmente e principalmente quando o fotógrafo consegue fazer de um click o momento em que toda a beleza de um instante perpetue-se em sua película ou em seu sensor CCD. Como o pôr do sol. A hora mágica em que as cores se misturam no branco infinito do céu. A hora em que a inclinação da Terra nos faz perceber os tons azulados dando lugar aos alaranjados, avermelhados, amarelados para então voltarem ao azul e daí para o preto, para a escuridão da noite, para o mistério do repouso.

A fotografia que ilustra este post foi feita em um fim de tarde, com uma Nikon D40 e retocada apenas para corrigir a exposição e dar destaque à faixa em que o azul se mistura com o laranja. The magic hour. Escrevendo sua poesia sobre as águas do Rio Tocantins, o sol oferece-nos um espetáculo perfeito. Nós tentamos imortalizá-lo, mas tecnologia nenhuma substitui a poesia da natureza. Se não soubermos ler a magia que se esconde ou que nos é revelada por ela, de nada adianta focar e clicar. É preciso ter alma para capturar a essência da vida. A técnica a gente aprende na escola….

Guerra e paz. Que paz?

Posted Janeiro 8, 2009 by Li-Chang Shuen
Categories: Comentário geral

Faz tempo que não atualizo o blog. Assim como faz tempo que não escrevo nada sobre o infindável conflito em israelenses e árabes. Acho que devo retomar as duas coisas. Mas, por enquanto, com as antigas regras ortográficas da língua portuguesa. Certa vez escrevi um texto sobre uma mãe judia, que levava um bebê de 9 meses na barriga. Foi morta em uma emboscada, nos idos de 2001 ou 2002. O terrorista árabe se disfarçou de soldado israelense, se aproximou do carro e disparou várias vezes contra os ocupantes. A mulher grávida morreu e seu filho não teve a oportunidade de ver a luz na Terra Santa. Assim como agora, Israel retaliou. E mundo hipocritamente chiou. A “opinião pública” internacional se apressa em condenar Israel. Reação desporporcional, é o que se diz. Então, correto seria imitar as táticas árabes? O correto seria se disfarçar, se infiltrar no meio da multidão, para que ninguém soubesse de onde vem o ataque e qual a cara do inimigo? Sim, porque essa é a lógica da estratégia árabe.

Se não fossem as constantes ações das forças de segurança, todos os dias teríamos pelo menos 40 atentados contra civis dentro de Israel. Gente que morreria sem nem ter a oportunidade de correr. Os palestinos reclamam dos helicópteros, dos mísseis, dos disparos e dos soldados. Mas eles sabem exatamente de quem correr. Eles sabem que o som das aeronaves prenunciam ataques. Eles conhecem o rosto de seu oponente. Eles podem correr. Porém, não querem ou simplesmente não podem. Os simpáticos militantes das facções que lutam contra a ocupação não deixam esse povo se proteger porque cada corpo é um troféu. Cada morto é um mártir. Não pela liberdade, mas pela perpetuação de seu infame poder. Cidadãos em Gaza são mais reféns do Hamas do que de qualquer ocupação.

Mas isso a opinião pública, sentimental, esquerdista e anti-semita não enxerga. É mais fácil colocar a culpa de todos os problemas no lado teoricamente mais forte. E eu pergunto? Israel, o lado mais forte? São menos de 8 milhões de judeus rodeados de mais de 300 milhões de árabes que se odeiam mutuamente, mas que se unem em torno do inimigo comum. Um inimigo que transformou o deserto em jardim, que inova tecnologicamente, que busca soluções para as enfermidades que desafiam a humanidade e, principalmente, que pratica a democracia em uma região onde a tirania e a corrupção são a regra. Os árabes não têm medo das bombas de Israel. Eles temem a sua democracia. Onde mais, no Oriente Médio, cidadãos desafiariam publicamente seu governo em meio a uma guerra onde o resultado pode significar a continuidade do próprio Estado e do próprio povo? Ah, mas isso ninguém vê. Ou melhor, ninguém quer ver.

Entre a vida e a morte, a obra

Posted Junho 26, 2008 by Li-Chang Shuen
Categories: Comentário geral

Dona Ruth Cardoso morreu. De repente, de súbito. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso dividiu a vida com essa mulher extraordinária por mais de cinco décadas e meia. Homem de sorte. Vendo as imagens do velório e do enterro pela televisão, vi no semblante daquele homem uma dor tão profunda quanto inimaginável. E fiquei pensando: quando tudo acabar, quando ele deitar na cama à noite e ver que ninguém colocará a cabeça no travesseiro ao lado, que o lado vai permanecer frio e vazio, esse homem que já teve em suas mãos o destino de uma nação não saberá o que fazer de seu próprio. Estará perdido em lembranças, e tristezas, e saudades. Porém, lhe restará um consolo: a obra de dona Ruth permanecerá, junto com as melhores lembranças que da esposa ele puder guardar.

Antropóloga de renome internacional, dona Ruth foi uma mulher que se preocupou com a condição das mulheres na sociedade. Se preocupou com a condição das crianças, dos homens, dos velhos, do ser humano. Ela dizia que um país que não sabe ler, não pode crescer. Mostrou em sua simplicidade que não bastava ser intelectual, tinha que ser intelectual engajada. E concebeu, como a um filho, o programa Brasil Solidário, que incluía programas de alfabetização e de geração de emprego e renda. Tanta gente saiu da obscuridade ao conseguir decifrar símbolos desenhados no papel. Tanta gente saiu da indigência desenvolvendo capacidades empreendedoras. Mais do que esmolas, ela mostrou que o brasileiro precisa de oportunidades. O bolsa escola, que depois deu origem ao bolsa família do governo Lula, nasceu sob a supervisão intelectual de dona Ruth. Mas não era isolado. Dinheiro a esmo não resolvia os problemas de nossa pobreza, ela sabia disso. E revolucionou os programas sociais deste país tão desigual.

Além da atuação como primeira-dama, discreta porém decisiva, dona Ruth nunca deixou de ser pesquisadora, professora, exemplo. Da série “gostaria de ser essa pessoa quando eu crescer”, dona Ruth lidera minha lista. Cultivar a cultura e o amor ao conhecimento, de forma engajada e não blibliotesca, livresca, foi o grande mérito dessa mulher. Sua obra permanecerá viva. E será testemunho de um Brasil civilizado, em que o combate às desigualdades um dia deixará de ser paternalista para ser desenvolvimentista. Foi o sonho de dona Ruth. É o sonho de todos os brasileiros.

19 horas

Posted Maio 15, 2008 by Li-Chang Shuen
Categories: Comentário geral

Nas aulas de jornalismo, especialmente rádio e telejornalismo, os professores de redação reproduzem em sala de aula um ensinamento retirado dos manuais dos pequenos e grandes veículos audiovisuais: a hora, nesses meios, deve ser dada no formato “sete horas da manhã”, “sete horas da noite”. Motivo: nem todo mundo sabe que 19 horas é o mesmo que sete horas da noite. Porém, a Radiobrás invariavelmente começa o seu tradicional A Voz do Brasil com um sonoro “Em Brasília, 19 horas”. É a exceção da regra. Lembrei desse ensinamento básico de redação ao me deparar esta semana com a triste realidade das pessoas que não sabem que 19 horas é o mesmo que sete horas da noite.

 

Estava em um ônibus, saindo de São Luís com destino a Imperatriz, no Sudoeste do Maranhão, quando uma moça com belos traços indígenas e uma criança que aparentava ter uns quatro anos de idade no colo olhou para o bilhete de passagem e me perguntou: dezenove horas é oito horas da noite, né moça? Antes de responder que não, todos os manuais de redação que havia lido quando estudante de graduação me vieram à mente naquele instante, assim como as oficinas de redação promovidas pelos veículos nos quais trabalhei em minha carreira jornalística antes de ingressar na docência do ensino superior. Nunca, em toda a minha vida, havia imaginado que aquele ensinamento era tão básico quanto necessário. Expliquei a ela a correlação das horas entre o meio dia e a meia noite. No povoado onde ela mora, as pessoas ouvem a voz do Brasil, mas não sabem a que horas, exatamente, o programa começa. Aquela voz embargada pela estática característica das transmissões em amplitude modulada que chega aos rádios de pilha das casas do lugar anuncia que na capital do país as pessoas dizem as horas do segundo período do dia de forma misteriosa. Para caboclos do Brasil profundo, aquilo pode ser realmente um mistério. Afinal, os relógios baratos comprados por R$ 1,99 em alguma lojinha de feira só têm marcadores de 1 a 12, de tal forma que 19 horas é coisa de outro mundo.

 

O episódio serviu também para passar parte da vigília que sempre me acompanha em viagens noturnas para refletir sobre as deficiências educacionais deste país. Aquela moça jamais foi à escola. Notava-se pela forma como ela “conjugava” os verbos e “concordava” os elementos das frases. Fazia uso de um português tão instrumental quanto incompreensível em algumas ocasiões. O jeito simples de vestir e a maneira acabrunhada de falar denunciavam também o sentimento de inferioridade diante de pessoas que aparentavam ter lido uma meia dúzia de livros na vida. Para ela, assinar o próprio nome e ser capaz de ler os itinerários dos ônibus já era coisa de literato. Pobre moça. Tão bela e tão condenada a uma vida na obscuridade da ignorância. Devia ter uns 20 anos, se muito. Ainda há tempo para corrigir tamanha injustiça, tamanha condenação. Mas, onde ela mora há escolas que oferecem educação para jovens e adultos? E se há, o governo promove alguma campanha para informar isso aos que necessitam? Promove também campanhas para incentivar a matrícula e a freqüência dessas pessoas?

 

Uma campanha de promoção da educação de jovens e adultos é tão necessária quanto as escolas. Porque pessoas que acreditam já ter passado da idade de ir à sala de aula aprender a ler a escrever sentem vergonha de sua condição de analfabetos. São pessoas que se intimidam tendo que empunhar cadernos e lápis de ensino fundamental quando seus próprios filhos e netos já o fazem. Na mente simples dessas pessoas, é como perder a autoridade diante dos descendentes por admitir a ignorância e se submeter aos ditames de uma “tia” que de repente é muitos anos mais moça que os alunos. Porém, é necessário. O locutor da Voz do Brasil, afinal, não pode informar as horas somente para pessoas que leram uma meia dúzia de livros nos centros urbanos.

QI, berimbau e preconceito

Posted Maio 1, 2008 by Li-Chang Shuen
Categories: Comentário geral

A fama de preguiçoso é patrimônio cultural do baiano. Mas creditar à preguiça e a uma suposta inferioridade intelectual inata dos estudantes a baixa nota obtida pelo tradicional curso de medicina da Universidade Federal da Bahia é, pelo menos, preconceito. Preconceito contra os alunos cotistas e pelos demais, preconceito contra a herança cultural de um povo que elegeu o berimbau como instrumento de identidade coletiva.

 

O coordenador do curso, Antônio Natalino Dantas, cometeu vários equívocos e um crime ao comentar o resultado do curso no Enade. Em sua avaliação equivocada, ele não levou em consideração os verdadeiros motivos da pífia nota 2: o curso está sucateado e os alunos aproveitaram o exame para protestar com a única arma que tinham, o boicote. Deixar de resolver o exame é uma forma eficiente de chamar a atenção para uma realidade comum às universidades públicas deste país. Os cursos, em sua maioria, não passam de sucatas, com professores que muitas vezes fingem que dão aula em salas que todo mundo finge que são laboratórios para alunos que fingem que daquele jeito é possível aprender. Não sou a favor de boicotes. Em minha época de graduação, não “colei” no provão do então ministro Paulo Renato de Sousa. Colar no provão era responder às questões colocando um adesivo de protesto na folha em branco. Porém, o protesto dos alunos da UFBA, que foi entendido como burrice crônica e contagiosa, fez efeito. Chamou a atenção para o fato de que aquela tradicional escola de medicina, a mais antiga do país, não passa de um amontoado de sucata. E esperam que algo seja feito para melhorar a qualidade do processo de ensino-aprendizagem. Afinal, em última instância, esse debate interessa é aos futuros pacientes desses futuros médicos.

 

Já afirmar categoricamente que o fato de ter um instrumento de uma corda só como símbolo da cultura popular é prova incontestável da falta de inteligência daquele povo é preconceito que traz em seu bojo o racismo. E racismo é crime. Por que racismo? Porque berimbau é um símbolo da cultura afro-brasileira. Ou seja, é coisa de preto. O discurso do professor é claro: os alunos foram mal na prova porque são negros e negros são desprovidos de inteligência e só não vê quem não quer porque os negros são capazes de tocar apenas um instrumento de uma corda só, coisa de quem tem “um único neurônio”. O que talvez ainda não tenha sido dito ao caro colega é que tocar berimbau é tão difícil quanto tocar qualquer outro instrumento de corda. Talvez até mais difícil, já que tem apenas uma única corda de onde várias notas devem ser produzidas. O baiano pode até ser o preguiçoso que a anedota nacional prega, mas desprovido de inteligência, não. Já o preconceito, este sim tem um QI questionável.

Estrada de ferro Carajás

Posted Abril 24, 2008 by Li-Chang Shuen
Categories: Comentário geral

 

Viajar de São Luís a Açailândia no trem da Companhia Vale do Rio Doce é uma descoberta. Primeiro, do trem em si. Pelo menos no que se refere à classe executiva, daqueles que pagam o dobro do que paga quem vai na classe econômica, ninguém pode reclamar de falta de conforto. As poltronas são boas, os vagões são espaçosos e o serviço de bordo é eficiente. Mas isso você pode ler nos textos publicitários da companhia, que diz transportar diariamente cerca de 1.300 pessoas em seus vagões de passageiros. O que você não vai ler em texto publicitário algum é a pobreza extrema do Maranhão rural. Nem a beleza que se revela nas paisagens cortadas por trilhos e dormentes.

 

Em muitos lugares, o único sinal de que existe civilização é o trilho do trem. Verde, em todos os tons, amarelo, vermelho e todo o colorido da natureza, numa transição entre mata dos cocais e floresta amazônica, bichos e muita água: é o que se vê na maior parte do tempo. A engenhosidade humana fez com que os trilhos contornassem alguns montes, atravessassem outros ao meio, olhassem com desdém o fundo do vale embaixo das pontes estrategicamente construídas. O que a engenhosidade humana não fez, porém, foi acabar, ou pelo menos diminuir, a pobreza e a miséria, que se revela ainda em São Luís, na paupérrima zona rural cortada pelo caminho do progresso.

 

Saindo do Anjo da Guarda, a estação, o trem passa por pequenos povoados que quase ninguém sabe que existem. As casinhas tristes, de taipa ou de palha, de porta e janela, anunciam o que se verá ao longo da viagem pelo Maranhão profundo. E ponha casinhas tristes nisso. Fiquei me perguntando se aquelas pessoas, naqueles casebres perdidos no meio do mato, sabem diferenciar a ficção da realidade: será que eles sabem que novela é de mentira e telejornal é (para ser) de verdade? E o luxo que eles vêm na televisão, se à televisão eles tiverem acesso, será que têm noção de que certamente nunca verão algo parecido fora da telinha, porque simplesmente estão condenados àquela vida de isolamento e pobreza por tempo indeterminado?

 

Para muitas dessas pessoas que vivem próximas à ferrovia o trem é a única esperança de que alguém olhe para elas. Os viajantes da classe executiva olham para eles por pouco tempo. Os viajantes da classe econômica olham um pouquinho mais, porque compram seu almoço a um preço bem menor que o vendido no (caro) restaurante do trem. O que me deu certeza de que as crianças dessas localidades sonham em entrar no trem da Vale com destino a uma vida melhor foi o espetáculo de pratinhos de comida, bugigangas, produtos naturais e toda sorte de coisa vendável que meninos, meninas, homens e mulheres maltratados pela roça estrelavam quando o trem parou na hora do almoço em algum lugar depois de Santa Inês.

 

Como dois mais dois são quatro, aqueles meninos e meninas sonham que uma vida melhor pode estar num daqueles vagões. Vai ver quando essas crianças ficam a cismar embaixo de uma sombra qualquer, imaginam que vão crescer, pegar o trem da Vale, ir para a capital ou outra cidade qualquer, arrumar um emprego (de quê?), ganhar dinheiro e voltar naquele mesmo trem para mostrar para todos que um sonho de tornou realidade. Eu torço para que se torne. Infelizmente, é possível que um dia, os filhos e netos dessas crianças tenham o mesmo sonho que seus pais e avós, embaixo de uma árvore, e tendo que acordar quando o apito do trem for ouvido, porque a dura realidade bate à porta.

De novo, os assassinos

Posted Dezembro 27, 2007 by Li-Chang Shuen
Categories: Comentário geral

Benazir Bhutto foi assassinada em mais um ato terrorista no Paquistão. Só este ano, 800 pessoas perderam a vida no país de Pervez Musharraf graças aos fundamentalismos em infestam aquela parte do mundo. A mulher, primeira premiê do mundo islâmico, pagou um preço muito alto por ser mulher, política, progressista e desafiadora em um mundo dominado pelos homens, seus conservadorismos e seus fundamentalismos.

Bhutto tinha, além de um capital político expressivo, um poder simbólico quase inigualável neste mundo islâmico. Não negava sua condição mulçulmana, mas lutava por coisas que nós mulheres ocidentais já nem lembramos mais que são caras de tão corriqueiras na maioria de nossos lares: igualdade entre homens e mulheres, cidadania, direitos humanos. Coisas tão simples, mas que lhe custaram a vida. Uma pena.