
O contraste entre a beleza e a miséria é algo chocante, embora muitas vezes pareça poético quando captado pelas lentes de uma máquina fotográfica. A região dos Lençóis Maranhenses é uma das mais belas e ao mesmo tempo mais pobres do país. A imensidão branca pontuada aqui e ali por lagoas esverdeadas e azuladas, sob um imenso céu de profundo azul, é de uma plasticidade aterradora. Tão bela, tão sublime, tão apaixonante. Ao redor, nas cidades e povoações que o circundam, reina a mais absoluta pobreza, também pontuada aqui e ali por oásis de luxo e conforto que toda região turística sabe, com maestria, exibir. Os frutos da explosão da indústria do turismo, porém, ainda não conseguiram ser colhidos por toda a população daquela área. Os municípios ainda oferecem serviços precários, quase não há rede de saneamento básico, a urbanização é incipiente, o sistema de transporte é uma inexistência agravada pela configuração natural da região (quem é o louco que vai asfaltar as trilhas que levam às mais belas lagoas dos Lençóis?), o nível de emprego é aquele da subsistência e o resultado é algo próximo à fotografia abaixo.
Casa de taipa, coberta de palha, quase sem mobília e crianças que se assustam ao perceber que são objeto de curiosidade. As fotografias que ilustram este post, feitas por Joedson Silva no último fim de semana, me fizeram recordar de um episódio triste acontecido há uns quatro ou cinco anos. Uma equipe de reportagem na emissora de televisão na qual eu trabalhava encontrou nessa região tida por muitos como uma amostra do paraíso algumas crianças vivendo em condições mais que desumanas, animalescas. O repórter Sidney Pereira mostrou a história de pequenos seres humanos com os pés e mãos infestados de pequenos e incômodos invasores, que aqui chamamos popularmente de bichos-de-porco, vermes que se encravam na pele e consomem o tecido subcutâneo, provocando infecções e dores terríveis. As crianças mal podiam andar. Precisaram ser levadas para a capital, São Luís, para a retirada dos bichos. A extrema pobreza e o descaso em que as crianças viviam, dentro de uma área tão rica e cobiçada, chocava. Dormiam no chão de terra batida, comiam quando tinham sorte, bebiam uma água amarelada sem nenhum tipo de tratamento. Só podiam estar doentes mesmo.
Mais do que vermes, mais do que fome, o descaso é o que estava matando aquelas crianças. Como isso pode acontecer é que á algo difícil de explicar, especialmente em uma região promissora, que recebe a cada ano um fluxo maior de turistas. Vai ver que manter seres humanos naquelas condições é uma forma de garantir uma atração exótica a mais para europeus e brasileiros abastados que vão até lá deixar seu dinheiro que, no fim, é mal-versado por políticos que têm pouca ou nenhuma consideração com aqueles que sustentam, verdadeiramente, suas mordomias ao custo da indigência e da desesperança.
